segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Identificação & Auto-Retrato


Identificar-se é reconhecer-se na essência de algo. Na proposta deste trabalho, este 'algo' é um lugar. A identificação defendida por Hall define-se como um processo crítico interno e externo. Ao mesmo tempo em que procuramos dentro de nós mesmos uma identificação pura e verdadeira de nós mesmos, compomos uma paisagem identificatória própria que conflita e soma-se aos elementos de um lugar; lugar que estará em constante transformação, como nós. Este sentimento de identificação sofre constantes abalos (positivos, creio eu) e se altera. Por isso, dentro do raciocínio de Hall, podemos pensar que o homem pós-moderno está sempre em busca de uma identidade que esteja em harmonia com o ambiente em que se encontra. O que nem sempre é facil, ou certo. A crise constrói e destrói, formando novos conceitos e conectividades.

O lugar com o qual me identifico é o bairro do Centro Cívico. Ali cursei todo o primeiro grau. Hoje, é o lar da minha namorada. É um ótimo lugar para caminhadas devido à grande quantidade de árvores nos bosques. A natureza me faz muito bem.
A foto que apresento foi feita com rápida observação, composição e uma excitante paciência. Eu estava passeando com minha cunhada, quando reparei que um poste e sua sombra estavam em boa harmonia com os elementos do segundo plano (fundo), do outro lado da rua. Eu observei com calma e trabalhei uma composição. Minha cunhada me perguntou o que eu vi de tão interessante naquele simples poste. "A sombra e as linhas verticais e diagonais estão com boa comunicação geométrica entre si", expliquei. Ela exclamou um "nossa!" e achou graça. Foi quando notei que um homem de muletas vinha da esquerda, ao longe. Na hora já saquei a foto e disse à minha cunhada: "Fotografar é organizar os elementos em uma composição bonita e poderosa. Depois, basta esperar algum elemento vivo cruzar o visor para compor o momento auge da estética fotográfica. Repare naquele homem de muletas vindo pra cá. Basta esperar ele entrar na composição de maneira harmoniosa e fotografar." O que bastou foi esperar o homem se aproximar. Fiquei imóvel para que ele não notasse muito minhas presença. Então, quando ele estava quase na posição certa, eu apontei a câmera e prendi a respiração. Quando sua única perna tocou o chão próximo ao limite do quadro, eu disparei. Ri satisfeito e mostrei a fotografia à minha cunhada. Ela riu e disse: "Linda foto, boa observação."
Foi um momento mágico que respondeu ao meu bem-estar naquele lugar e também ao meu olhar fotográfico. É um auto-retrato. A energia do bairro responde bem à minha fotografia. Identificação? Ambiente, fotografia, amor, paciência e, acima de tudo, beleza. Ali, as fotos funcionam interessantes pitadas surrealistas num rápido clique.

por Eduardo Baggio

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