quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Apesar de você amanhã há de ser outro dia...



Num ambiente de excesso de informação como o da Internet, o grande perigo para o jornalismo é o mal uso da rede. No primeiro momento da história da comunicação em que o leitor pode trocar de lugar com o jornalista e tornar "O Roberto Marinho de si mesmo", deve-se olhar com muita atenção ao que é confiável e digno de credibilidade no mar de conhecimento. Entretanto, os novos criadores de conteúdo não devem ser difamados à toa. Estamos na sociedade da colaboração.

Em uma recente campanha publicitária, o jornal "O Estado de S. Paulo" comparou os blogueiros à macacos, gerando uma discussão acalorada sobre o assunto. Não deixou de ser criativa e divertida, mas foi uma campanha agressiva e o jornal não teve bons resultados com sua investida. O objetivo de alertar para um problema que a internet trouxe chamou menos atenção que os pobres macacos. Já ciente do erro cometido, o Estadão realizou um debate com alguns dos principais atores da rede. Na ocasião, o jornal demonstrou seu ponto de vista de maneira mais clara e com bons argumentos. Entretanto, o estrago já estava feito e o número de acessos ao site do jornal nunca mais foi o mesmo. Perdeu-se com essa atitude uma certa sintonia com seu leitor que costumeiramente é antenado e atento às tendências. Esse foi um dos vários anúncios da campanha publicitária que acabou afugentando ao invés de aproximar.


Não só a área de comunicação está tendo que se adaptar às rápidas mudanças da web, mas diversas grandes empresas estão reconhecendo o papel dos mediadores da rede. Consultores de redes sociais já acompanham sites de relacionamentos como Orkut para descobrir o que pensa o consumidor de seu produto. Por exemplo, diante da criação de uma grande comunidade pedindo a volta do achocolatado Nescau tradicional, a Nestlé, dona da marca, logo se mexeu e tirou suas viseiras. Ela não só atendeu ao pedido e devolveu o produto às prateleiras como também passou a olhar com mais cuidado as redes sociais. A empresa percebeu que os resultados das intermináveis reuniões de executivos de gravata não eram mais valiosas que as com o próprio cliente.


Em campanhas políticas, a plataforma televisiva passou a ser utilizada com destreza por John Kennedy. Seu dom de oratória e boa eloquência tornavam-no um bom candidato na tela. Já nessa eleição o papel da internet foi considerado mais importante que o da televisão. Nos Estados Unidos, o coordenador de mídias sociais e internet da atual campanha presidencial do senador Barack Obama é um jovem de vinte e quatro anos chamado Chris Hugues, que criou o site de relacionamentos Facebook. Obama lidera as pesquisas presidenciais e o fator rede foi fundamental à sua ascensão. Para mentes acostumadas ao pensamento essencialmente metódico, cartesiano, entregar a responsabilidade de uma campanha como essa para um jovem sonhador seria um erro sem tamanho. 


Nos últimos dias, as bolsas de valores do mundo todo têm oscilado de maneira que os jornais impressos não mais acompanham. Somente hoje a Bolsa de Nova York teve a maior queda em vinte e um anos e a Bolsa de São Paulo teve o maior desnível dos últimos dez. Acordar cedo e ler o jornal ou correr para a banca pela manhã não traz mais muitas vantagens ao cidadão que deseja estar bem informado sobre as turbulências da economia. O papel da edição impressa é cada vez mais analítico e da publicação online mais instantâneo.


Como pudemos constatar, não há motivos para ignorar a rede. Mais inteligente é usá-la como aliada como fizeram a Nestlé, o candidato Barack Obama e o leitor do caderno de economia que se identifica com as facilidades dessa nova mídia. Quanto ao jornalismo na internet, ele será cada vez mais útil ao ter sua rapidez e praticidade associadas à boa apuração, à pluralidade de fontes, ao senso crítico e a disposição de fazer reportagens com sensibilidade. São características que podem ser levadas para a nova mídia.

As marcas editoriais que fizeram a história e trouxeram reputação ao grande jornal que é o Estado de S.Paulo não deixarão de ser notadas enquanto houver vida inteligente. Os leitores não são macacos nem mesmo os blogueiros. Sempre haverá espaço para o bom jornalista e o bom jornal.

Edgar Massao Kawamura, Tiago Pereira, Vinicius Perrone, Rafael Nascimento, Gabriel Caldart

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