sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Meirelles, Canclini e todas as Marias


O trabalho de mestrado realizado por Dácia da Solva e Odinaldo da Costa Silva que consiste em trabalhar os efeitos da recepção de sete domésticas de Brasília frente ao filme 'Domésticas' de Fernando Meirelles, pode estabelecer um paralelo com os estudos do antropólogo argentino Néstor García Canclini. Seus estudos baseados na organização da cultura, na hibridização das tradições de classes, etnias e nações visam entender os pontos de intersecção entre o visual e a ficção, o tido erudito com o popular. Desterriorizando processos elaborados no campo do simbólico, as novas tecnologias da comunicação reordenam o espaço público e privado, expandindo gêneros impuros e ditando uma nova maneira de se relacionar com a própria identidade.



No trabalho Domésticas- o filme (de Fernando Meirelles): um estudo de recepção com empregadas Domésticas do Distrito Federal, o que se pode perceber a partir das pesquisas da diretora Renata Melo - da obra que antes de ir pra telinhas foi peça de teatro - uma rica pesquisa com cerca de 200 empregadas domésticas de São Paulo que discorreram sobre seus dilemas, alegrias, causos diversos da vida particular, dando suporte para que fosse escrito um roteiro teatral que fosse o mais diverso e próximo da dinâmica de vida dessas trabalhadoras. Foi feita uma contextualização, análise e interpretação do filme para depois partir pros chamados cine-fóruns em grupos focais, que se resumiu a apenas um por dificuldades de deslocamento, reunir as mulheres, entre outras. As mulheres com as quais Odinaldo trabalhou - Feliciana, Do Carmo, Marcela, Ruth, Tina, Cida e Ângela - tiveram reações das mais variadas. Identificaram-se com a trilha sonora, de gênero bem popular, com algumas das dores sofridas pelas domésticas (algumas com relação à opressão de seus patrões), mas repudiaram algumas atitudes rebeldes como a empregada que xingava incessantemente a patroa por esta ter esquecido a data de pagamento do salário. Condenaram também a atitude de Cida que deixava o lento marido em casa para ensinuar-se a Uilton, motorista da casa onde trabalha.



A recepção da mídia eletrônica no meio rural conecta seus membros com inovações modernas, alcançando públicos mais plurais, impulsionados, segundo Canclini, pelas novas tecnologias. Viver numa grande cidade não necessariamente subjulga seus membros a dissolverem-se na massa e no anonimato, pois veículos de comunicação, como o rádioe a TV, conectam pessoas para transmitir-lhe informações e entreternimento a domícilo, quebrando um pouco com este aparente isolamento proposto pelas metrópoles. Ao levantar a temática das domésticas, Fernando Meirelles discute em seu primeiro longa, realidades de vida sofrida por personagens da vida real, não apegando-se fielmente ao histórico de vivência de cada uma individualmente, mas dialogando com o universo pessoal dessas mulheres, dando sentido coletivo às situações pelas quais passam. A mídia passa a ser o elo que interliga as interações coletivas da sociedade, que ganha conotação democrática ao abordar o real retratado pelas imagens capturadas de histórias contadas. Canclini percebe a substituição da vida absoluta da vida urbana pelos meios audiovisuais como um jogo de ecos, a publicidade que vemos na TV são as mesmas que vemos nas ruas, e a essa circularidadesubordinam os testemunham e os atores da história da vida que constroem experciências de longa duração.



Canclini, estudioso que preocupou-se com a recepção dos produtos da comunicação na América Latina, desconsidera a passividade do espectador e isso pode ser comprovado na recepção das domésticas de seu filme: elas tem uma postura um tanto crítica sobre alguns pontos que não correspondem à sua realidade individual, e concordam com outros que vem ao encontro de suas experiências. Podemos afirmar então, que há certa interação sim entre o real e o que as pessoas concebemdo que dele é retratado.

Alunos: Camila Roque, Luís Lima, Hermes Pons, Rafael Antunes e Priscilla Scurupa.

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