sexta-feira, 7 de novembro de 2008

“Eu quero ter o rosto da Nicole Kidman”


O botox é a nova crise de identidade, aquela apontada por Hall, agora remanejada para os rostos paralisados das pessoas, das celebridades, dos personagens sem expressão na TV. Isso por que os meios de comunicação têm influenciado agora em um processo de construção de uma identidade que, seja qual for o preço a pagar, precisa ser eternamente jovem.

O poder absoluto do botox chega na mídia como comportamento a ser seguido, uma nova mania na qual não se medem as conseqüências. Em entrevista ao jornal Daily Mail, um especialista em cirurgias plásticas do Canadá, Martin Braun, acusou a atriz Nicole Kidman de estar influenciando mulheres a usarem o produto. Braun causou polêmica ao afirmar que Nicole estava com “cara de morcego”.

Possuir a pele lisa e rica em colágenos de um jovem é a nova porta de entrada para ser aceito no grupo, para continuar pertencendo a este grupo, que vai envelhecendo, injetando botox e ingerindo juventude. E apesar do uso e da evidência do uso, as pessoas parecem não ligar para o fato de que passam a ter um rosto congelado e químico - o parecer jovem já basta.

Os estudos de Josimey Costa da Silva e Thiago Tavares das Neves apontam que há um consumo cultural juvenil, que, neste caso, também pode ser visto sob a ótica dessa busca pela “fonte da juventude”, que hoje pode ser encontrada nas clínicas de cirurgias plásticas. A idéia de um consumo jovem se adapta à idéia de que mais e mais pessoas, aquelas que já não têm mais vinte anos, consomem uma imagem jovial, que não é somente formada pelo conjunto de células unidas, mas também pelo modo de se vestir, de se expressar e viver a vida.

Encontra-se no uso do botox a perda da memória do rosto, e inicia-se uma crise de identidade, uma vez que é a própria mídia que se insere num mundo de vida eterna, e passa a encarar a juventude como um produto. Braun disse na entrevista que muitas mulheres iam até ele querendo o rosto de Nicole Kidman. É a homogeneização da expressão, é o fim da identidade.

João Zampier Neto

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