domingo, 9 de novembro de 2008

"O que a Beleza é?"

por Eduardo Baggio

"O que a beleza é?

Eu vou tentar descrever

Um fruto do próprio esforço

[...] É o final do 'ensaio sobre a cegueira'".

"Praça de Alimentação", da banda curitibana Terminal Guadalupe.


No final do "Ensaio Sobre a Cegueira", todos percebem que perderam a visão para aprender a enxergar. José Saramago, autor da obra, alerta: estamos viciados em imagens; nosso olhar se perdeu; quando todos vêem demais, ninguém vê nada.


O PhotoShop não é inimigo. Nosso gosto estético, também não. Cada época tem sua graça e estilo, reinterpretada pela década posterior.

Os photoshopeiros de hoje são os pintores talentosos de ontem. Sabemos que Napoleão não era viril como mostram as pinturas. Sabemos que a feiúra de Carlota Joaquina era exaustivamente redesenhada. E quem pode dizer que Monalisa foi tão bela quanto aparece na obra?

A beleza é uma edificação. Seu processo de criação ( ou busca) exige que o artista reflita, sofra, alegre-se, vasculhe o mundo e a si mesmo com intensidade e qualidade. Desse garimpo surge a arte: beleza. Esta nos encanta e preenche com vida. Ela é fruto do auto-mergulho e doação. Criar é retaliar-se, dividir-se para encontrar o deleite máximo.

E caminhando nesse sentido, a beleza moderna é legítima, mas banalizou-se. Usar a ferramenta PhotoShop para buscar um ideal de imagem é uma qualidade. Mas criar um vício pelo processo de estetização, exagerar e crer que tudo e todos devem passar pelos pincéis da ferramenta, é excesso.

Sigmunt Baumann é um sujeito atento a isso tudo. Sua trilogia de liquidez (Vida, Modernidade e Amor Líquidos) reflete, principalmente, sobre como o homem moderno se vê, interpreta e equilibra. A verdade, defende o autor, é que não há equilíbrio algum. “O medo líquido faz o sujeito desesperar-se, pois pode tornar-se defasado em instantes. Todas as oportunidades podem escorrer pelas mãos como água”, defende Baumann. E nosso ideal de beleza sofre com isso. Sofre, pois, como defende o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, “a cultura ocidental não aceita que nada envelheça; somente o jovem é belo”.

Talvez, creio eu, a malignidade esteja em tornar tudo igual, tudo americano e enlatado. A profundidade se perde. O momento é vivido para ser tão-somente registrado, e não vivido. Assustados, percebemos: tudo [e fraco por detrás das câmeras. Vivemos pela imagem, e não pelo coração.

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