quarta-feira, 31 de março de 2010

Paradigmas da Comunicação

"A grande novidade paradigmática trazida por Breton é a idéia da parole , desenvolvida em seu último livro intitulado Éloge de la parole . Neste texto, o autor retoma vários de seus temas anteriores e defende a parole como uma espécie de substância da comunicação, criando com clareza um novo paradigma.

É difícil uma tradução precisa do termo, no sentido que é atribuído pelo autor. Literalmente, parole quer dizer, em português, palavra. Pode-se também traduzir parole por verbo ou parábola, nos sentidos bíblicos destes termos. Para o autor, a parole significa a transmissão de mensagens feitas por e entre seres humanos, com ou sem o uso do oral. Ele exemplifica com a 'fala' dos surdos. Eles falariam por meio de sinais codificados em cada cultura. Um surdo francês levaria algum tempo para entender o idioma dos surdos norte-americanos... Como eles não ouvem, codificam sua língua em sinais (gestos) que podem apresentar muitas diferenças de cultura para cultura. Mas, como eles trabalham com sinais, de modo similar a uma 'escrita' gestual, não têm o som para 'atrapalhar', conseguem facilmente reverter os sinais de uma cultura para outra... Seria como se falássemos com uma escrita gestual.

Sem desqualificar os teóricos que o precederam, Breton, ao eleger o paradigma da parole como vetor de compreensão do que é comunicação, colocou novos problemas e novas perspectivas para a pesquisa teórica e aplicada no campo. A comunicação é a transmissão da parole e esta é uma construção possível do corpo humano, que a transmitiria e a receberia, salvo engano, por duas formas básicas: a conversação e a leitura.

Entender-se-ia conversação como qualquer troca de mensagens entre pessoas, mediadas ou não por máquinas, usando-se qualquer suporte, habilidade ou sentido. Quando vemos a multidão nas ruas de uma grande cidade ocidental, movida pelo desejo do consumo no momento de uma campanha publicitária de saldos de balanço, fim de estação, liquidação de estoque, fica nítido como a comunicação entre as pessoas é fundamentalmente um problema do corpo.

Elas buscam a semelhança ou a diferença pelas roupas, adereços, pinturas, cabelos e atitudes; falam em suas línguas e acentos natais com seus próximos ou com os vendedores; balançam seus corpos na motricidade de cada grupo sociocultural (gestualidade corporal), desenvolvem expressões faciais altamente indicativas de seus estados emocionais; agitam os braços; olham em determinadas direções ou para lugar nenhum; esbarram uma nas outras; reclamam; olham os cartazes; vêem as etiquetas; são ignoradas ou notadas por alguns; falam aos celulares que não param de tocar; em suma, comunicam-se o tempo todo, com os outros, consigo próprias e, sobretudo, com a ordem social e simbólica onde estão inseridas. Tudo isto, e muito mais, poderia estar na rubrica da conversação e na do uso dos meios de comunicação corporais.

Enquanto a conversação está na ordem da produção ativa e objetiva de sentidos, a leitura está na ordem na subjetivação. Na vida prática, fazem-se as duas coisas ao mesmo tempo, como no exemplo acima. Não há como separar a leitura da conversação e vice-versa. Ambas fazem parte do uso da parole como forma de comunicação. Quando se vê TV, se está dominantemente na ordem da leitura. Ver TV, neste sentido, se parece com as outras ‘leituras' que fazemos das mensagens recebidas dos meios de comunicação. A conversação que se processa é a de natureza intersubjetiva. Se esta prática é acompanhada da discussão com outros que estão fazendo a mesma coisa, oscila-se o tempo todo entre a conversação e a leitura."

Luís Carlos Lopes
Professor do corpo permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense.

Alunos: Ricardo Rüppell Paraná Júnior, Monica Melo

Um comentário:

celina disse...

não entendi...vcs entrevistaram o professor?