terça-feira, 16 de novembro de 2010

Foucault no livro As palavras e as coisas

Algumas conclusões podem ser apontadas a respeito da estratégia de Foucault no livro As palavras e as coisas. A primeira delas é que, ao analisar o modo de ser dos saberes empíricos e do pensamento filosófico nos termos de uma concepção de história assentada nas simultaneidades arqueológicas, Foucault mostra que aí o homem é uma figura ausente. Quer dizer, ele chega a tal conclusão porque as filosofias deixam de ser entendidas a partir de uma história da filosofia; elas são situadas pela correspondência com os saberes empíricos que lhes são contemporâneos. Em vez de serem pensadas a partir de um tempo contínuo marcado pelo progresso da razão, as filosofias são problematizadas num espaço homogêneo de relações.

A segunda conclusão está relacionada ainda à filosofia moderna. Para Foucault, na sua versão fenomenológica, a filosofia tornou-se essencialmente antropológica e por isso naufragou na sua própria impossibilidade. Não somente porque ela trata de responder à questão sobre quem é o homem, mas principalmente porque não deixa de ser uma reflexão mista na qual o vivido, que permanece empírico, é assumido por um sujeito constituinte. A arqueologia quer apontar as principais características da filosofia moderna a partir da perspectiva da finitude e, com isso, mostrar o essencial entrelaçamento com seu exterior, ou seja, com as ciências modernas da vida, do trabalho e da linguagem. Em definitivo, o arqueólogo sublinha que o homem somente tornouse um suposto, um sujeito constituinte para a filosofia, porque antes foi considerado objeto constituído por parte dos saberes empíricos. Assentadas na fragilidade desse objeto, as ciências humanas habitam um espaço nebuloso; alicerçadas num sujeito supostamente constituinte, as filosofias ignoram sua profunda ambiguidade.

Bibliografia Pesquisada

ARAÚJO, I. L. de.; BOCCA, F. V. Temas de epistemologia. Curitiba: Champagnat, 2006. p. 125-143.

CANDIOTTO, C. A arqueologia da linguagem de Michel Foucault. In: CANDIOTTO, C. (Org.). Mente, cognição, linguagem. Curitiba: Champagnat, 2008. p. 227-249.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

______. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000b.

Revista de Filosofia Aurora. Dossiê Foucault/Deleuze. v. 21 n. 28 jan./jun. 2009. Curitiba: Champagnat, 2009. p. 13-28.

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