quinta-feira, 28 de novembro de 2013

''O legal é ser monótono''

César Pimenta Quinoe tem 41 anos, ainda jovem como se define o porteiro de um condomínio de classe média em Curitiba caminhava solitário pelo shopping analisando as vitrines. " O natal já está aí, como o ano passou rápido", diz enquanto continua caminhando com olhar apaixonado por todas as luzes e brilhos do fim do ano. Casado 18 anos, Quinoe tem 2 filhos, um de 6 e outro de 17 anos. O mais velho, toca em uma banda de rock com os amigos, o que segundo César é parte do que o faz se sentir jovem. Uma vida tranquila, de marido, pai e trabalhador, o homem conta ainda com outra definição que o faz emergir no seu passado: religioso.
Ainda criança, perdeu o pai em um acidente de trânsito e viu sua mãe se transformar em uma mulher fechada e deprimida. Buscou ajuda na fé também para continuar os estudos, que terminaram no primeiro ano do ensino médio. Fez parte do coral da igreja, ouviu muitos testemunhos de vidas transformadas pela "obra" e explica, sabia que um dia seria a sua vez. No entanto, os 18 anos, influenciado por amigos que o incentivavam a faltar o culto para ir a baladas, se envolveu em drogas. Um período curto, lembra, mas muito marcante. A revolta com o que a vida fez a seu pai e a sua mãe finalmente vinha toda a tona, as drogas liberavam tudo o que ficara em espreita, esperando, dormindo. Foram dois anos. Nesse período porem, não conseguiu desligar-se totalmente da sua religiosidade, e pelo menos uma vez ao mês ainda ia a igreja, e aos poucos foi voltando. "Foi quando eu fui a casa de uma irmã que diziam estar com o diabo no corpo, aconteceu. Eu queria ir até lá, rir dela, e agir como um garoto de 20 anos que eu era. Perguntar ao diabo por que ele me escolheu pra sofrer, já não tinha resposta de Deus. Eu achava que era tudo farsa, mas quando cheguei lá, e não precisa acreditar em mim, a mulher se retorcia, gritava, afundava e flutuava na cama. Aí ela começou a gritar meu nome, e eu nem conhecia ela. Comecei a chorar, e a mulher gritava que eu estava no caminho certo para o inferno." A cena o fez mudar, voltou a igreja e ajudou muitas pessoas, assim como viu muitos outros exorcismos. As pessoas, diz César, não acreditam mais nas coisas sem que tenham visto com seus próprios olhos, e foi o que fez. Afastou-se de vez das más influências e, aos 23 anos conheceu sua atual esposa, na igreja. Casaram-se no mesmo ano.  "As pessoas acham que tem que ter a lida louca, mas eu já vi muita coisa nesse meus poucos anos de vida, e o legal é ser monótono. Comer frango e maionese no domingo, deitar do lado da minha esposa todos os dias depois do trabalho e saber que isso não vai mudar nunca."
Hoje, cursando o curso de teologia pago pela igreja que frequenta, segue os passos para se tornar pastor, e acredita que poderá pregar tudo o que Deus fez na sua vida, e assim ajudar as outras pessoas.

UM EXEMPLO DE VITÓRIA

ferson Antunes da Silva, mais conhecido como Jeff pelos seus amigos, nasceu dia 26 de agosto de 1985, na periferia de Curitiba. Filho de pais pobres com mais três irmãos, a vida lhe foi dura. Estudou pouco, só até a 8 ª série, pois tinha que trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Quando Jeff tinha 16 anos, seu pai, que era cobrador de ônibus, ficou muito doente e veio a falecer. A mãe, que era costureira, ficou sozinha com seus 4 filhos.


Jeff trabalhava como office-boy em uma corretora de seguros. Ganhava em torno de 200 reais e todo seu salário ia para a casa. Vivia em função de sua família. Mas isso o cansou. Começou a frequentar alguns lugares e a conhecer alguns “amigos” que o levaram para o mau caminho. Primeiramente, Jeff conheceu a maconha, depois a cocaína e por aí foi. Saiu de casa, largou o emprego e foi na morar na rua, refém do vício e da sorte.
Foram quatro anos vivendo como mendigo nas ruas de Curitiba. Pedia dinheiro nos semáforos e quase tudo que ganhava ia para sustentar o vício em drogas e álcool. Não roubava e nem assaltava, pois tinha consciência de que as pessoas não tinham culpa de sua doença. Tanto é, que ele confessava para as pessoas para quem pedia dinheiro de que era para o sustento de seu vício.
Até que um dia uma pessoa mudou sua vida. Uma não, várias. Uma Kombi da Fundação de Ação Social parou em frente a loja que ele estava dormindo, levando Jeff para um albergue. Claro, a princípio foi contra a sua vontade, mas conseguiram convencê-lo de que seria melhor tratar de seu vício. Levaram Jeff para um centro de reabilitação no Bairro Alto, que disponibiliza várias oficinas profissionais. Foi aí que ele começou a desenvolver suas habilidades para o artesanato.

Faz quatro anos que ele venceu as drogas. Hoje, Jeff vende o que faz em feiras populares como a que está acontecendo na Praça Osório. Ele faz lembrancinhas relacionadas ao estado do Paraná. Sua vitória pessoal é um exemplo para todos nós.

Grupo: Luciano Simão, Pedro Melo, Roberto Rohden e Vithor Marques.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dona de casa e costureira

Aldaíza Galatti Gimenes, 53 anos, nasceu no interior de São Paulo. É dona de casa e organiza bazares para vender suas costuras e arrecadar fundos para uma instituição de caridade.


Bazar de caridade

Ainda criança, mudou-se para a capital paulista com seus pais, que buscavam mais oportunidades de emprego e uma escola com melhor qualidade no ensino. Quando jovem, cursou psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Durante o tempo na universidade, ela conheceu seu atual companheiro, Amauri Gimenes, também com 53 anos. Para que pudessem continuar juntos, Aldaíza permaneceu na cidade grande. Os dois se casaram e tiveram dois filhos, um menino e uma menina.

Após a troca de alianças, Aldaíza passou por momentos difíceis devido ao falecimento de seu pai. No entanto, a vida lhe reservava uma boa surpresa: ela estava gravida de seu terceiro filho, outra menina.
Aldaíza completou seu curso de psicologia um pouco antes do nascimento de sua filha mais nova, e teve uma curta carreira na profissão. Preferiu se dedicar a família e ao artesanato voluntário.
A casa ficou ainda mais cheia com a chegada de Nick, um cachorro da raça Golden Retrievier.
A dona de casa, além de realizar bazares beneficentes, da aulas de costura gratuitamente.
Aldaíza também reserva um tempo para cuidar da saúde e pratica natação e pilates.



Grupo: Aline Bonn, Bruno D. Piccolo, Gabriel Massaneiro, Mariana Benevides e Natália Moraes

"EU SEMPRE ACHEI LINDO ESSE MUNDO"

Jisrael Lemes faz parte do elenco do circo dos sonhos



Gabriela Kuzma


Entre acrobatas, mágicos e palhaços. Por dentro de lonas, em cima de palcos. Conquistando o tempo e o coração das crianças a infância não muito diferente das quais costumamos ver por ai, Jisrael jogava bola, empinava pipa, jogava vídeo game, andava de skate e ia escola. Quando mais velho passou a trabalhar em uma loja de games, mas sempre apaixonado pela vida que o circo proporcionava. E com 15 anos passou a fazer parte desse mundo
Desde criança o paulista acompanhava o trabalho de seus tios em um circo da cidade onde morava, e com o apoio de sua mãe que já havia feito parte da equipe do circo Beto Carreiro Word, ele acompanhou suas irmãs virarem dançarinas no Circo Spacial. “” Eu sempre achei lindo esse mundo, depois de um tempo realmente me apaixonei e quis fazer parte dele. Hoje eu amo o que faço”, conclui Lemes. Há faz 5 anos que ele trabalha no circo. Hoje é um integrante importante na equipe do Circo dos sonhos, que possui unidade fixa em São Paulo e uma unidade viajando pelo Brasil. Apesar do que muitos pensam a vida no Circo além de difícil pode também ser considerada diferente. Jisrael conta que mora com o trabalho e viaja com o circo, ele se apresenta nas noites de sexta a domingo, quando a maioria das pessoas está de folga descansando de uma semana de trabalho, porém nas segundas e terças- feiras ele folga enquanto todos trabalham. Mas não para por ai, de quarta a sexta feira os ensaios acontecem na faculdade da cidade onde estão lá, Lemes tem treino de parada de mão e acrobacias solo. Nas partes livres cada um corre atrás do que gosta de fazer, algumas meninas vão para dança, outros pra academia, alguns ficam treinando e outros visitam a família. Enquanto Jisrael estuda, para poder realizar seu sonho de ir para fora do Brasil.

Equipe: Bruno Krieger, Caio Porthus, Gabriela Kuzma, Leonardo Dulcio e Hélcio Weiss

Um entre os quatro mil


Uma vida de paixão pelo futebol

Colecionador do Lance e apaixonado pelo esporte, Martins Sebastião Kreusch conta suas experiências com o esporte mais popular do Brasil

São 73 anos de idade e muitas experiências já vividas, como advogado, professor de português, soldado do exercito e jogador de futebol. Esse é Martins Sebastião Kreusch, um apaixonado por futebol que possui muitas façanhas acumuladas. Entre elas, jogar com o Rei Pelé em Brasília. O apaixonado por futebol recebeu a equipe do Comunicare em sua casa para mostrar sua prova de amor. “Aqui é a minha vida”, ressaltou.
A sua façanha destaque se dá por possuir todas os 5807 exemplares (até o dia da visita) do jornal esportivo Lance, encadernados e bem organizados. A coleção marca mais de 14 anos de duração. Até o próprio jornal procurou Martins para saber mais sobre sua coleção. “Um dia uma jornalista do Lance me telefonou lá de São Paulo e disse que ficaram sabendo que eu tinha uma coleção e tinha os cinco mil números”, recorda. Para o ex-jogador, a coleção serve para seguir o futebol.
Martins é um leitor fiel do jornal Lance / Foto: Gabriel Sawaf

Mas essa não é a única coleção que Seu Martins possui. O apaixonado por futebol guarda vários objetos de diversos clubes em sua casa, principalmente do Flamengo e do Paraná, seus times do coração. Martins também possui uma série de livros sobre futebol e de atletas, como Neymar, Marcos e Rogério Ceni. Além de contar com uma coleção de várias camisas, cerca de 30 peças de vários times, como Vitória, São Paulo, Fortaleza, Bahia e mais alguns times internacionais, como PSG, Chelsea, Manchester United e AJAX.
Dentre uma das camisas de sua coleção, está a camisa da seleção da Hungria de Puskas / Foto: Gabriel Sawaf

O advogado não é formado em jornalismo, o que já lhe foi um desejo. Mas isso não afastou Martins de escrever sobre futebol. Suas crônicas são publicadas em média quatro vezes na Tribuna do Paraná, geralmente em resposta a colunas de Dante Mendonça. Martins não ganha dinheiro com seus texto, apenas escreve por hobby. “Eu escrevo quando me dá vontade”, afirma. Além de escrever suas crônicas, ele assiste jogos pela TV e escreve um resumo sobre cada um, anotando o que enxerga sobre o jogo. Seus resumos são feitos em um caderno, que já está acabando as folhas. E o mais interessante, existe um caderno lotado de anotações para cada ano, já que fazem cerca de 20 anos que Martins possui esse hábito.  Mesmo já possuindo um livro de crônicas sobre sua vida, Martins não tem vontade de fazer um livro sobre futebol “Acho eu que não tenho mais tempo”, lamentou.
Além de ver o futebol como um telespectador, Martins já teve uma curta carreira como jogador, na época que o futebol era em campo de barro puro. Começando quando era soldado do exercito em Santa Catarina, e foi convocado para participar da primeira leva de soldados do Sul que iria servir em Brasília. Chegando à recém-inaugurada capital, os clubes que surgiam na nova cidade iam nos quarteis para procurar jogadores. Em uma dessas visitas, o Alvorada acabou levando Martins e mais três parceiros catarinense para vestir sua camisa. Enquanto defendia o Alvorada, foi convocado para defender a seleção de Brasília em um amistoso, por comemoração da inauguração da primeira arquibancada de madeira em um estádio da região. O adversário era o Santos de Pelé, um dos seus grandes ídolos, que acabou vencendo o jogo por 6 a 1.  “Começou a partida, e nada do Pelé”, recorda a ausência do Rei. “No começo segundo tempo, o Pepe foi bater um escanteio, eu estava parado e quando olhei para o meu lado esquerdo, tinha entrado o homem. Veio parar do meu lado, o Pepe bateu, a bola subiu, eu saltei e não alcancei a bola e atrás de mim ele deu peixinho e entrou Pelé com bola, poeira e tudo pra dentro do gol. E por ironia, ele ficou enroscado naquela rede velha, de barbante e nós fomos tirar ele de lá da rede”, relembrando o seu confronto contra o Rei do futebol. Martins ainda viria a jogar no futebol catarinense, pelo Barroso de Itajaí, pelo Arco-Íris, pelo Internacional e pelo Grêmio, esses últimos três da cidade de Lajes.


Martins (na direita da foto) recorda seus tempos no Alvorada/GO / Foto: Gabriel Sawaf



Grupo: Gabriel Sawaf e Fernando Detoni 

A Vida de um Colecionador

João Carlos Marinoni nasceu no dia 04/07/1940, em Curitiba. Filho do representante comercial, contador e jogador de futebol, José Américo e da professora Regina Casagrande Marinoni, João nasceu e cresceu em um mesmo bairro da capital paranaense, o Prado Velho.   

Há 50 anos está casado com Libia de Oliveira Marinoni, vendedora da loja de discos do Centro da cidade. Com ela teve três filhas: Cíntia, Simonne e Nicole, que por sua vez lhe deram três netos: Luis Felipe, Giovanna e Beatriz. João sempre prezou por ter sua família próxima e unida, não foi à toa que construiu uma casa para cada filha, no mesmo terreno onde sempre morou.

Seu período de ensino fundamental e médio foi no Colégio Santa Maria.  Já sua primeira graduação foi em Direito, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), no período de 1960 a 1964. A admiração por livros, cinema e música era tão grande que, em seu contra-turno, estudava Jornalismo na PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). Trabalhou por dois anos no jornal mais popular da cidade, Gazeta do Povo, redigindo textos, sem remuneração alguma. Também teve participação no jornal O Diário Popular e, mesmo depois da rotina ser corrida, arranjava tempo para trabalhar na Biblioteca Pública do Paraná.

Em 1978, pensando em se aperfeiçoar, João fez um curso de administração para graduados, na FAE, e começou a trabalhar como funcionário público do Estado no setor administrativo. Assim permaneceu por 36 anos.

Depois de tudo, ainda teve fôlego para advogar pelo Estado por quatro anos, e foi este cargo que garantiu sua aposentadoria. Em paralelo com todos seus estudos e trabalho, João Carlos sempre foi apaixonado por animais. Quando pequeno acompanhava seu tio Manoel Mehl, mais conhecido como ‘’Maneca’’, em corridas no Jockey Clube.

Ao longo da sua caminhada, João criou galos, diversas espécies de passarinhos, e teve, como seu principal hobby, o mais importante canil de criação de Buldog Inglês de Curitiba.
Através do canil, ganhou prêmios e chegou a vender cachorros para outros estados e até mesmo para pessoas da mídia como, por exemplo, o apresentador Jô Soares. Também criou outras raças e montou o primeiro canil da raça Mastin Napolitano, pelo qual foi responsável pela introdução e divulgação da raça.

Todas essas atividades eram exercidas em seu quintal, na mesma casa em que nasceu e que mora ainda hoje. Hoje, ainda possui quatro Buldogs e um Boxer da última ninhada, período quando encerrou sua criação por limitações da idade.


Sua paixão por animais ainda é intensa e faz com que atualmente tenha cerca de 20 gatos e que hoje é considerado como seu ‘’passa-tempo’’.


Seu espírito de colecionador não acaba por ai! João ainda faz coleções de discos de vinil, filmes em VHS, DVD’s, CD’s, relógios, chaveiros, gravatas, miniaturas de carros, cachimbos, livros e chapéus que, junto com suas costeletas, marcam sua identidade. Suas coleções tomaram proporções tão grandes que foi necessário utilizar outras casas para guardar essas preciosidades.

Gabriela Fialho, Lara Pessoa e Manuella Niclewicz 
Pipoqueiro Valdir é exemplo de empreendedorismo popular


Com um carrinho de pipocas no Centro de Curitiba, Valdir é muito reconhecido pelo seu trabalho.

Equipe: Daniel Malucelli, Daniela Leal, Julia Baggio e Monique Benoski 





Um caso emblemático de marketing para pequenos negócios é o do pipoqueiro Valdir Novaki, 41 anos. Apostando em qualidade, criatividade e atenção ao consumidor, Valdir conquistou seu espaço no mercado de forma singular e divertida.


O pipoqueiro diverte todos que passam pela Praça Tiradentes
Foto: Daniel Malucelli

O pipoqueiro é reconhecido pela forma como administra seu negócio. Vindo do interior e sem ensino fundamental, Valdir mostrou ser um grande empreendedor. Ele percebeu que as pessoas deixavam de comprar pipoca devido à falta de qualidade e limpeza. “Baseado nisso fiz um curso de manipulação de alimentos. Levei tudo que aprendi para o meu negócio”, diz Valdir.
Seu carrinho de pipoca, localizado na Praça Tiradentes, tem uma higiene impecável. Assim como seu uniforme branco alvejado, que é trocado diariamente. Ele bordou os dias da semana em seu uniforme, para provar a troca e a limpeza. O cliente ganha um kit higiene composto por um guardanapo, fio dental e uma bala de hortelã. “Com criatividade e investindo em pequenos detalhes, conquistei minha clientela. Graças a essas ideias, pude ser reconhecido pelo meu trabalho”, afirma o pipoqueiro.

Seu comprometimento e carisma são o diferencial na sua profissão.
Seu comprometimento e carisma são o diferencial na sua profissão.
Foto: Daniel Malucelli

Aumento nas vendas

Valdir garante vender trinta vezes mais do que quando começou, há sete anos. Por ser um empreendedor nato, proativo e se expressar de forma simples, tem muito a repassar aos profissionais de vendas, estudantes e executivos. Já ministrou palestras, nas quais aborda temas como inovação, criatividade, maestria no atendimento, qualidade de serviços, motivação pessoal e empreendedorismo. Mesmo recebendo financeiramente mais com as palestras, ele não larga o carrinho. “Meu trabalho é nas ruas”, ratificou Valdir.
Em suas palestras, Valdir conta como foi possível ganhar a vida e realizar seus sonhos vendendo pipoca. “Em sete anos, consegui realizar tudo que quis. Comprei minha casa, minha chácara, um carro e pago os estudos do meu filho. Todo o sustento da minha família vem da pipoca”, contou o comerciante.

Tintas e versos à beira do rio Belém

Pinturas feitas por Maninho ficam expostas em frente à sua "casa"
Foto: Alana Dombrowski Lima

Era uma manhã que poderia ser outra qualquer, mas algo a fez se tornar diferente. Quando estamos acostumados a fazer o mesmo caminho diariamente, ficamos cegos para pequenas coisas que estão à nossa volta. Aquela manhã, em que o ponteiro do relógio marcava pouco mais das sete horas, não foi a mesma depois que avistamos aquele senhor, pintando quadros com os dedos em meio às águas fétidas do rio Belém, em frente à universidade.  Por que ele estava ali? Será que morava ali? Por que pintava com as mãos?
            Essas e outras perguntas nos levaram a mergulhar na história de “Maninho”, o pintor do rio, e seu amigo “Pirata”, também conhecido como “Velho do rio”. À margem do rio e à margem da sociedade, Maninho e Pirata vivem de uma forma invisível, fazem parte da “vida que ninguém vê”. Vivem ou sobrevivem? Eis a questão que não cala. Cercados por muito lixo, fazem de uma cabana improvisada, ao lado do rio Belém, o seu endereço. Endereço? Longe da formalidade, perto e longe de tudo ao mesmo tempo, vivem sob o sol, sob a chuva, jogados à própria sorte, que na verdade está mais para azar. Dentro da “casa”, toca uma música de amor: “A dama de vermelho”, no radinho de pilhas que é companheiro dos dois. Lixos, roupas espalhadas, um fogão improvisado e o retrato da miséria, da condição subumana, do descaso. 
É na margem do rio, na frente da cabana, que Maninho pinta seus quadros e sua história. Desconfiado, quieto, um homem franzino, um desconhecido em sua própria cidade. Sua arte é basicamente composta por desenhos de árvores, de natureza.  Ele pinta sem pincel, pinta sobre madeira, partes de móveis velhos, muros ou até sobre um monitor de computador. A cada pincelada, um raio de esperança, uma tentativa de transformar em arte a tristeza do seu cotidiano.
O pintor do rio e o Pirata dividem dilemas e histórias por volta de 4 meses. Pirata chegou primeiro, há cerca de um ano foi levado para as ruas. O motivo? Uma separação trágica, uma traição, alterações de humor e a “Lei” – assim mesmo, entre aspas - Maria da Penha, como ele definiu. O ex-carpinteiro deixou o trabalho, a casa, filhos e netos. O conforto ficou no seu passado. No presente, versos para esquecer a amargura, o lixo e marcas profundas. Do seu futuro, ele não sabe, prefere deixar para os deuses, e canta:
“Sigo trabalhando, sigo andando e sempre agradecendo aos nossos deuses. Tanto o deus do bem, quanto deus do mal e só os dois sabem nosso final”.
Sobre a dicotomia dos deuses, o homem do rio, que anda com um crucifixo na mão e possui uma imagem do diabo sobre sua cama, justifica: “Aqui nós acreditamos em tudo e em todos, tanto o bem, quanto o mal”.  Pirata ainda fala que não rouba, que não pede esmola, mas que trabalha. Lamenta pela discriminação das pessoas, abaixa os olhos envergonhados, olha para as mãos sujas e desabafa. “Quando te jogam na rua, você tem que aprender a se virar, cozinhar, dormir sujo, a comer sujo. Tem que aprender a viver de verdade. Todo mundo vem aqui com a intenção de nos arrancar daqui, não de nos ajudar”.
O pintor da natureza também foi para as ruas por motivo semelhante, mas atualmente tudo o que deseja é se aperfeiçoar em sua arte. Tímido, ele está sempre em busca de fazer o melhor. A cada pincelada, um sonho que se concretiza em um, dois, três dias ou mais. A cada obra, uma nova ressurge. Maninho se inspira em cada árvore, em cada paisagem, em cada desejo de sua alma. Talvez fosse mais interessante para ele fazer um curso. Seu companheiro reconhece seu talento e diz que ele gostaria muito de ter aulas particulares, que não envolvessem ninguém da prefeitura. Entre tintas e lixo, o medo das organizações oficiais é claro.
E é assim, dia após dia, dias de sol ou de chuva, primavera, verão ou inverno que o artista e o velho do rio levam sua vida.  Entre versos, tintas, fome, medo e esperança, os dois homens tentam sobreviver, tentam driblar as dificuldades. Pirata sorri, os dentes estragados e amarelados não o impedem de cantar o verso final.
“Eu não sou daqui, sou do lado de lá. Eu vim aqui só para passear e por isso eu convidei Jesus para me acompanhar, para que meu passeio possa melhorar. Porque tem muita gente que só quer estragar o passeio dos outros por causa dos passeios dos outros. Desse lugar nada se leva, tudo aqui tem que ficar e por isso convide Jesus para te acompanhar e esse mundo pode melhorar”.
Maninho e Pirata são apenas mais dois entre as ruas de Curitiba. Quantos “Maninhos” e quantos “Piratas” estão por aí? Em cada esquina a triste história se repete. É o ciclo dos invisíveis, é a vida que ninguém vê.


Equipe: Alana Dombrowski Lima, Bruna Caroline Santos Cavalheiro, Bruna Martins Oliveira

Bem-te-vis


 Bem-te-vis

Coronel aposentado, Armando César Castro, de 79 anos, conta uma de suas inúmeras histórias vivenciadas por conta de suas viagens com o exército. Castro justifica a escolha da narrativa dizendo que, mesmo após tantos anos, sempre guardou o momento em sua memória. O aposentado acha fascinante o fato de dois seres tão pequenos e subestimados (bem-te-vis) unirem suas forças e realizarem tamanha façanha para salvar a vida de seus filhotes, enaltecendo o poder da natureza. Segundo Castro, a história serviu de inspiração em vários momentos de sua vida.

foto: weheartit
“Em frente ao pequeno quartel do exército onde eu era tenente no Acre, região quente da Amazônia, havia uma imensa árvore. Nos galhos mais baixos, havia um grande ninho de bem-te-vis. Há vários dias eu observava o ninho onde apareciam três ou quatro ovos e, após algum tempo, nasceram dois dos filhotes. Em uma manhã de sol forte, vi os pais voarem em busca de alimento e escutei o ruído que faziam os passarinhos abandonados no ninho. Não demorou muito até que surgisse um imenso gavião que, penetrando a densa copa da árvore, dirigiu-se tranquilamente para o ninho dos bem-te-vis. Quis intervir, pensei em atirar pedras, mas a árvore era muito alta e logo vi a inutilidade da ideia. Naquela agonia, percebi que iria assistir ao gavião devorando os bichinhos. Foi quando notei o casal de bem-te-vis chegando. Preso entre os galhos, o gavião recebeu uma tremenda surra, fugiu e, ainda assim, o casal o perseguiu em pleno voo continuando a briga, evidenciada pelas penas que voavam.

Equipe: Beatriz Lima, Camila Costa e Laís Holzmann
2°período


NOS PASSOS DO PAI

Foto: Daniele Dalla
José Pires de Oliveira Filho, 76 anos, trabalha como engraxate na rua XV de Novembro, o ofício lhe foi transmitido por seu pai que também o passou as ferramentas usadas e a clientela.  O local em que atende sua freguesia é sempre o mesmo, em frente de um comércio. Oliveira Filho trabalha todos os dias e consegue sustentar ele e a esposa com o dinheiro que ganha.

Curitibano de berço, a história deste trabalhador caminha junto com o famoso ponto de Curitiba, a conhecida popularmente como Rua das Flores, que na década de 20 começava a ser tomada por veículos. O projeto de pedestrialização da rua realizou-se durante a administração de Jaime Lerner, onde o paisagismo e a urbanização da cidade se configuraram, para participar do projeto da rua a administração convidou o arquiteto Abrão Anis Assad.

No dia 19 de maio de 1972, ao anoitecer, para evitar impedimentos por parte dos comerciantes, caminhões com areia e trabalhadores desembarcaram na rua e a construíram utilizando “petit pavê”, como a vemos hoje.  As pedras que formam desenhos expõem marcos de nossa cidade aos turistas, foi este trabalho um dos motivos que transformou a cidade de Curitiba em modelo para todo o País.

O que vem sendo criticado pela população e também por José são os descasos com esse patrimônio cultural e histórico, as calçadas estão depredadas e os remendos que são feitos não respeitam a estética original. São muitas as memórias de Oliveira Filho ligadas a uma das primeiras ruas de Curitiba, onde seu pai trabalhou por 50 anos.

Foto: Daniele Dalla
Além de engraxate Oliveira já trabalhou como jogador de futebol profissional, atuando ao todo em sete times, dentre eles o Bloco Esportivo Morgenau fundado em 1932, e o extinto Britânia fundado em 1914. Em todos esses anos José já presenciou manifestações no local, incêndio e outras transformações no cenário.

Oliveira Filho guarda as memórias de uma época distante, na qual via carros passando e operações policiais à cavalos acontecendo na XV, obrigando ele a buscar refúgio nos comércios próximos.


Com um sorriso no rosto ele continua a tradição de seu pai e espera que estas memórias não se percam. Torce para que dêem mais atenção ao lugar que faz parte de sua vida e lhe fornece tudo que precisa.

Equipe do 2° Período/Manhã: Caroline Paulart, Daniele Dalla e Gilberto Stori Junior

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ILUSTRE DESCONHECIDA


Curitiba, como toda grande cidade com aspirações à megalópole – embora esteja distante disso – reserva histórias de proporções homéricas, que se fossem filmadas teriam espaço reservado e cativo na fila dos épicos. Sabemos, parece exagero ao dizer isso, mas tendo em vista a singularidade pessoal de cada humano, são justamente essas histórias pessoais e únicas que nos fazem diferentes, que nos faz sair do tão famigerado “lugar comum”.

Nossa personagem é uma pessoa que se encaixa justamente nessa particularidade de “saída do lugar comum” que chamamos. Margarita Wasserman, judia nascida no Uruguai, hoje com 86 anos, hoje é considerada uma das maiores memorialistas de Curitiba, que passou por todos os lugares comuns que a vida pode proporcionar após sua família encontrar a paz em Curitiba, depois de fugir dos horrores da 2ª Guerra Mundial: Casou-se cedo, teve 4 filhos, lutou contra os outros horrores da ditadura, viu seus filhos serem exilados pela ditadura no Chile e desceu aos porões da ditadura pra salvar seu genro. “Lá em São Paulo, resgatei meu genro dos porões depois que ele foi preso por engano, já vi coisas piores do que isso na minha vida, e não vai ser um sargentinho de meia pataca que vai me parar. Mandei uma carta para a esposa do presidente à época Costa e Silva, duas semanas depois a carta de liberação veio e fui buscar meu genro pessoalmente”, conta.

Cartas são uma paixão na vida de Margarita, que sempre gostou de relatar aquilo que sentia justamente com aquilo que via. Seu padrinho de literatura foi Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba. “Eu sempre escrevi, mas quando o faço, eu tento dar um tom de crônica no meu método de escrita. Eu sempre tento aliar a minha história pessoal ou a história dos meus amigos com tudo àquilo que acontecia em Curitiba. Mas sempre escrevi pra mim e para meus familiares, nunca pensei em publicar”, diz.

E não foi por falta de pressão, pois alguns conhecidos nomes da literatura local sempre incentivaram a publicação desse texto. Um dos padrinhos literários de Margarita não é nada mais e nada menos do que o Vampiro de Curitiba, o Dalton Trevisan. “Eu tava chorando na rua com uma correspondência na mão, e sempre fomos colegas de escola, e ele perguntou o porquê eu estava chorando, e expliquei que era porque me sentia muitos sozinha, pois fui muito maltratada por minha mãe e cheguei a morar em pensão, e virei pra ele e disse ‘Dalton, não tenho onde morar’, e mostrei a carta a ele. Ele depois de ler disse, ‘quando que você vai publicar isso?’, e falei pra ele que nunca, pois sempre achei que isso que escrevia não tinha valor literário nenhum”, explica.


Ao contrário do que Margarita pensava, o valor literário das crônicas de Margarita são altos. Na opinião de José Carlos Fernandes, jornalista da Gazeta do Povo, a poética inclusa por ela nos textos sobre Curitiba são peculiares. “A Margarita consegue trazer elementos muito pessoais ao texto que ela escreve. Ela enxerga Curitiba de forma em que ela consegue relacionar o macro e o micro, ou seja, ela aborda todo o aspecto social e político de uma época e casa isso com as experiências pessoais influenciados por essas situações, tudo isso de forma sublime sem inventar nada. Ela não quer reinventar a roda, ela só quer relatar sua simpatia por uma cidade que a acolheu muito bem, e isso não é só com ela, mas com todos os judeus que após o Holocausto adotaram uma terra para chamar de sua”, relata Fernandes.

Essas crônicas ficaram guardadas consigo por quase 70 anos, quando Valêncio Xavier, um dos grandes nomes da literatura e cinema do Paraná e amigo de infância de Margarita entrou para o time dos apoiadores literários dela, pressionando-a para publicar seus textos. “Faz mais ou menos 10 anos que eu publiquei meus primeiros textos na Gazeta, depois de muita insistência do Dalton e do Valêncio. Mas depois disso, nunca mais parei. Já tenho 10 livros escritos e estou já escrevendo meu próximo”, conta.


Margarita é uma ilustre desconhecida, uma escritora nova, apesar dos 86 anos de idade, que nem faz questão de ser chamada de “escritora”, mas que carrega consigo a paixão por uma cidade e uma carga pessoal grande, assim como qualquer um que tenha vivido a vida de fato. Um ser humano normal, comum como qualquer um, mas que carrega um pouco de poesia no olhar quando fala de suas tristezas e paixões. Desconhecida por muitos, mas ilustre pra quem já a ouviu falar sobre por onde passou, o que destrói por completo o tal do “lugar comum”, por mais comum que seja.

Equipe: Gabrielle Russi, Pedro Giulliano
Foto: Pedro Giulliano

domingo, 24 de novembro de 2013

Papai Noel por opção





Como diz Paulo Tuczynsky (foto), para ser Papai Noel, basta querer. E ele quis. Tudo começou há cerca de 20 anos atrás, quando Paulo resolveu reunir toda sua família em torno da decoração de natal, na qual todos se uniam para enfeitar a casa e celebrar essa época do ano. O aposentado descobriu na decoração de natal um hobby, uma paixão. Começou com uma decoração pequena, mas foi expandindo com o passar do tempo. Dedicou uma parte exclusiva da sua casa para a decoração, onde reorganizou a disposição dos móveis para abrir espaço e colocou um palco para montar o presépio de Natal. Depois de finalizado, Paulo convidava seus amigos e familiares para admirar sua decoração. “As pessoas gostam de vir a noite, quando eu deixo acesas apenas as luzes da decoração. Todos dizem que é encantador”, diz Paulo.
O senhor, ao perceber a alegria e admiração de seus amigos e familiares ao verem sua decoração e o presépio, com detalhes minuciosos, decidiu expandir, então abriu para visitação de vizinhos e qualquer pessoa que desejasse visitar. Paulo conta que nunca pensou em lucrar com isso, pelo contrário. “Queria despertar nas pessoas o espírito natalino, decorando as casas, ajudando quem precisa e incentivando as pessoas a fazer uma boa ação”, diz. Com a ajuda de suas filhas, Paulo começou a realizar ações solidárias, como arrecadação de roupas de inverno e brinquedos para doar para crianças necessitadas.
Vestido de Papai Noel, Paulo recebia em sua casa crianças das creches localizadas em seu bairro. No dia da visita, as crianças brincavam, ganhavam um lanche, e recebiam os tão esperados presentes de Natal, arrecadados com a ajuda de conhecidos. Essa prática durou cerca de uma década, época na qual Paulo afirma que sentiu-se um verdadeiro Papai Noel, e beneficiou diversas crianças da região. Paulo, atualmente com 75 anos, conta que não possui mais disposição para realizar ações e brincar com as crianças. “Eu até quero, mas meu corpo não agüenta”, brinca o senhor.
 Apesar de reduzida, Paulo continua com a tradição de enfeitar a casa, com a ajuda de seus filhos e netos, os quais, segundo ele, são sua esperança para manter o legado da família. “É raro achar jovens com esses valores e virtudes hoje em dia”, diz. Para ele, a decoração de Natal não possui apenas valor estético, mas são detalhes que permitem às pessoas entrar no clima de Natal e viver o que essa época representa. “As pessoas tem que pensar menos no comércio e dar valor pro que realmente importa no Natal, que é manter a família unida e ajudar a quem precisa”, finaliza.

Foto: Jessica Mirely
Grupo: Amanda Paes, Jennifer Sacerdote, Jessica Mirely, Leanderson Moreira e Marina Creplive.