quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A mesma TV e um agricultor

  Um semblante marcado pelas rugas, castigado pelos longos anos sob o sol das temporadas de colheita: seu Dorival Correia. Apesar do corpo magro e ossudo, aparentemente fraco, seu Dorival já provou à vida ser forte. Provou com suas mãos calejadas, cujos movimentos continuam firmes e assertivos. Provou pelo longo tempo em que experimentou a fome e se manteve com recursos escassos, mas sobreviveu. Provou, principalmente, pelo sorriso que ainda carrega no rosto. São 76 anos e ele conserva sua sanidade.

  Para aqueles como o seu Dorival, a labuta começa cedo. "Vixe! Eu trabalho nessa terra há tanto tempo que parece que eu nasci dela. Hehehe. Você me pergunta desde quando eu estou nisso. Pois eu não me lembro, não. Acho que deve ser desde os 3...4 anos de idade. Ou seja, antes de eu saber que eu era gente. Hehehe", conta com seu sotaque carregado, que não o deixa esconder: é da zona rural de Campo Magro.

  Depois de ter falecido sua esposa, de quem seu Dorival lembra saudosamente, o agricultor desacelerou o ritmo de trabalho. Agora, ele se dedica mais aos seus companheiros: os animais e o televisor, que aterrissou em sua propriedade em 2004, presente de um de seus três filhos. "Eu já tinha uma TV há tempos. Mas não dava muita 'bola'. Tinha bastante trabalho. Depois que a Lisete [sua esposa] se foi, que eu parei de trabalhar tanto, passei a assistir mais aos programas. É bom...eu gosto mais do que passa pela manhã bem cedo, dos programas de pesca, do Globo Rural, RIC Rural. Coisas que têm a ver comigo, né? Hehe", acrescenta entre um riso e outro.


  Com a "descoberta" de seu Dorival, o fascínio pela tela só aumentou. Toda semana, ele liga religiosamente para todas as emissoras locais. Além de dar sua opinião sobre seus programas prediletos, ele procura sugerir pautas e, vez ou outra, por quê não, convida as equipes de reportagem para visitarem seu sítio. "Hoje em dia eu tenho uns animaizinhos muito diferentes. Seria legal eles aparecerem na TV. Tenho uma cabrita que me segue para todo o lugar que eu vou, um galo que não canta, não faz nada, e um coelho que foge todo dia, mas volta ao entardecer. Tenho também umas receitas muito boas para ensinar", diz credulamente.


Por Beatriz Pacheco, Gabriela Oliveira, Helem Barros e Laura Espada

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