segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ILUSTRE DESCONHECIDA


Curitiba, como toda grande cidade com aspirações à megalópole – embora esteja distante disso – reserva histórias de proporções homéricas, que se fossem filmadas teriam espaço reservado e cativo na fila dos épicos. Sabemos, parece exagero ao dizer isso, mas tendo em vista a singularidade pessoal de cada humano, são justamente essas histórias pessoais e únicas que nos fazem diferentes, que nos faz sair do tão famigerado “lugar comum”.

Nossa personagem é uma pessoa que se encaixa justamente nessa particularidade de “saída do lugar comum” que chamamos. Margarita Wasserman, judia nascida no Uruguai, hoje com 86 anos, hoje é considerada uma das maiores memorialistas de Curitiba, que passou por todos os lugares comuns que a vida pode proporcionar após sua família encontrar a paz em Curitiba, depois de fugir dos horrores da 2ª Guerra Mundial: Casou-se cedo, teve 4 filhos, lutou contra os outros horrores da ditadura, viu seus filhos serem exilados pela ditadura no Chile e desceu aos porões da ditadura pra salvar seu genro. “Lá em São Paulo, resgatei meu genro dos porões depois que ele foi preso por engano, já vi coisas piores do que isso na minha vida, e não vai ser um sargentinho de meia pataca que vai me parar. Mandei uma carta para a esposa do presidente à época Costa e Silva, duas semanas depois a carta de liberação veio e fui buscar meu genro pessoalmente”, conta.

Cartas são uma paixão na vida de Margarita, que sempre gostou de relatar aquilo que sentia justamente com aquilo que via. Seu padrinho de literatura foi Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba. “Eu sempre escrevi, mas quando o faço, eu tento dar um tom de crônica no meu método de escrita. Eu sempre tento aliar a minha história pessoal ou a história dos meus amigos com tudo àquilo que acontecia em Curitiba. Mas sempre escrevi pra mim e para meus familiares, nunca pensei em publicar”, diz.

E não foi por falta de pressão, pois alguns conhecidos nomes da literatura local sempre incentivaram a publicação desse texto. Um dos padrinhos literários de Margarita não é nada mais e nada menos do que o Vampiro de Curitiba, o Dalton Trevisan. “Eu tava chorando na rua com uma correspondência na mão, e sempre fomos colegas de escola, e ele perguntou o porquê eu estava chorando, e expliquei que era porque me sentia muitos sozinha, pois fui muito maltratada por minha mãe e cheguei a morar em pensão, e virei pra ele e disse ‘Dalton, não tenho onde morar’, e mostrei a carta a ele. Ele depois de ler disse, ‘quando que você vai publicar isso?’, e falei pra ele que nunca, pois sempre achei que isso que escrevia não tinha valor literário nenhum”, explica.


Ao contrário do que Margarita pensava, o valor literário das crônicas de Margarita são altos. Na opinião de José Carlos Fernandes, jornalista da Gazeta do Povo, a poética inclusa por ela nos textos sobre Curitiba são peculiares. “A Margarita consegue trazer elementos muito pessoais ao texto que ela escreve. Ela enxerga Curitiba de forma em que ela consegue relacionar o macro e o micro, ou seja, ela aborda todo o aspecto social e político de uma época e casa isso com as experiências pessoais influenciados por essas situações, tudo isso de forma sublime sem inventar nada. Ela não quer reinventar a roda, ela só quer relatar sua simpatia por uma cidade que a acolheu muito bem, e isso não é só com ela, mas com todos os judeus que após o Holocausto adotaram uma terra para chamar de sua”, relata Fernandes.

Essas crônicas ficaram guardadas consigo por quase 70 anos, quando Valêncio Xavier, um dos grandes nomes da literatura e cinema do Paraná e amigo de infância de Margarita entrou para o time dos apoiadores literários dela, pressionando-a para publicar seus textos. “Faz mais ou menos 10 anos que eu publiquei meus primeiros textos na Gazeta, depois de muita insistência do Dalton e do Valêncio. Mas depois disso, nunca mais parei. Já tenho 10 livros escritos e estou já escrevendo meu próximo”, conta.


Margarita é uma ilustre desconhecida, uma escritora nova, apesar dos 86 anos de idade, que nem faz questão de ser chamada de “escritora”, mas que carrega consigo a paixão por uma cidade e uma carga pessoal grande, assim como qualquer um que tenha vivido a vida de fato. Um ser humano normal, comum como qualquer um, mas que carrega um pouco de poesia no olhar quando fala de suas tristezas e paixões. Desconhecida por muitos, mas ilustre pra quem já a ouviu falar sobre por onde passou, o que destrói por completo o tal do “lugar comum”, por mais comum que seja.

Equipe: Gabrielle Russi, Pedro Giulliano
Foto: Pedro Giulliano

Um comentário:

Noemi disse...

Olá, Pedro Giuliano. Descobrimos essa entrevista por acaso...Nem nos avisaram.