sábado, 23 de novembro de 2013

O Passado É Importante, Mas é o Presente que Interessa



Viver em uma cidade grande tem lá seus benefícios. Uma capital cosmopolita gera a impressão de termos o mundo todo ao nosso alcance, e nos habituamos comodamente a todas as facilidades da urbe em que vivemos. Habituamo-nos inclusive com coisas não tão bonitas: desigualdades sociais, violências e falta de respeito, problemas de espaço para as tantos carros e tantas pessoas... Talvez até pelo dinamismo da vida, nos privamos dos contatos simples do dia-a-dia: uma conversa banal com um desconhecido no ônibus, um curto momento de atenção ao que um estranho tem a dizer. 

As cidades –grandes, pequenas, todas elas – têm um enorme “capital humano” escondido dos olhos de quem só enxerga seu próprio relógio. Porém por vezes é importante “descondicionar-se”. Colocar-se frente à ou dentro de uma realidade diferenciada da nossa é uma experiência muito fácil de ser vivida e, indo além, pode funcionar como um exercício de autocrítica e introspecção. 

Foi quase por acaso que a nossa experiência de distanciamento da rotina e do condicionamento urbano diário aconteceu a 60 km de distância de Curitiba, no Assentamento do Contestado, no município da Lapa (PR). Longe de todas as pré concepções sobre o que uma ocupação de 14 anos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra pode representar política e ideologicamente, buscamos o lugar para, antes de qualquer coisa, conhecer de perto as pessoas que trabalham e vivem naquelas terras. 

Seria um trabalho um tanto árduo traçar um perfil das mais de 108 famílias de trabalhadores que habitam o Assentamento. Andando pela sede da cooperativa, encontramos na estrada uma pequena mercearia. Batatas, cebolas, cigarros e refrigerante. “Só não vendemos coca-cola”, avisou o dono. Três homens estavam sentados do lado de fora da venda, conversando. Bom dia, bom dia. Nossas roupas e maneira de falar denunciavam a nossa identidade forasteira. 

Um dos três, o mais jovem, tomou a dianteira e perguntou de onde vínhamos. Explicamos: estudantes de jornalismo, estávamos fazendo um fotodocumentário sobre o assentamento. Depois disso, a porta foi aberta à conversa e tudo fluiu como se todos nós fossemos velhos conhecidos. Até que o homem que nos abordou primeiro começou a se revelar. Sebastião, o “Chinês”, como é conhecido, é professor de filosofia, sociologia e matemática na Escola Latina de Agroecologia. No jeito simples de falar foi se revelando um homem culto e inteligente. Imediatamente vimos nele a personificação de uma vida tão interessante que daria um curta (só assim sua personalidade cativante seria bem captada). Entre um assunto e outro, Sebastião disse de repente: “Sabe que o meu filho, que nem é jornalista, escreve uma coluna no jornal?”, nos contou com os olhos cheios de orgulho. Nos empolgamos com a novidade e pedimos para ler algo do filho, que, segundo o pai, tinha “um espírito muito crítico e muita visão de mundo”. O jornal estava guardado em casa e ele não hesitou. Disse para que o acompanhássemos, era ali pertinho. Entramos no seu Fiat Uno e fomos até lá. 

A sensação era de que a casa não tinha portas, não sei se pela receptividade do anfitrião ou porque a casa era muito simples. Uma mesa, um sofá pequeno, a pia, um armário de cozinha. E a bandeira do MST na parede, claro. Assim que chegamos, Sebastião foi falando sem freios como as coisas funcionavam por lá e nós ansiosos para, nos momentos certos, perguntar sobre sua história pessoal. Era difícil. Ele se limitava a dizer que havia estudado em Brasília, e que antes de 1999, ano da ocupação na Lapa, era militante dos Sem Terra. Paranaense de raízes rurais, disse que o passado era importante, sim, mas é o presente que interessa. 

Na sala havia poucas coisas, mas uma realmente chamou atenção: uma estante pesada, cheia de livros. “Li a maioria, mas acho que nunca vou ler todos os que pretendo!”, brincou ele. Sebastião deixou claro que tinha um compromisso muito forte com a educação, o que o fez desligar-se um pouco da militância social para poder dedicar mais tempo aos alunos. “Conhecimento é tudo”, repetia. Foi quando surgiu o filho, Gualter, que o Chinês ficou explicitamente feliz. Os dois, muito comunicativos e hospitaleiros, falavam sem parar. Lemos a coluna de Gualter e ao fim da leitura, pai e filho queriam nossas opiniões. Sebastião fez o filho tocar duas músicas no violão, sem esconder sua satisfação. As letras falavam de gente do campo, de mulheres na luta. Segundo eles, a mulher -na comunidade e fora dela- é respeitada como deve ser. 

Apesar de termos fracassado na missão de registrar um perfil de vida quase cronológico e ordenado, saímos daquela casa satisfeitos com as boas trocas que tivemos com pessoas completamente anônimas para nós e que, sem ligarem para nossas origens, ideologias ou visões de mundo, nos receberam com respeito e sem julgamentos, provando que basta existir boa vontade entre as pessoas para que as boas interações aconteçam.


Por: Fernanda Maldonado, Izabela Weber Azevedo, Patricia dos Martyres, Sâmela Rodrigues e Virgínia Moraes.

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