quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Tintas e versos à beira do rio Belém

Pinturas feitas por Maninho ficam expostas em frente à sua "casa"
Foto: Alana Dombrowski Lima

Era uma manhã que poderia ser outra qualquer, mas algo a fez se tornar diferente. Quando estamos acostumados a fazer o mesmo caminho diariamente, ficamos cegos para pequenas coisas que estão à nossa volta. Aquela manhã, em que o ponteiro do relógio marcava pouco mais das sete horas, não foi a mesma depois que avistamos aquele senhor, pintando quadros com os dedos em meio às águas fétidas do rio Belém, em frente à universidade.  Por que ele estava ali? Será que morava ali? Por que pintava com as mãos?
            Essas e outras perguntas nos levaram a mergulhar na história de “Maninho”, o pintor do rio, e seu amigo “Pirata”, também conhecido como “Velho do rio”. À margem do rio e à margem da sociedade, Maninho e Pirata vivem de uma forma invisível, fazem parte da “vida que ninguém vê”. Vivem ou sobrevivem? Eis a questão que não cala. Cercados por muito lixo, fazem de uma cabana improvisada, ao lado do rio Belém, o seu endereço. Endereço? Longe da formalidade, perto e longe de tudo ao mesmo tempo, vivem sob o sol, sob a chuva, jogados à própria sorte, que na verdade está mais para azar. Dentro da “casa”, toca uma música de amor: “A dama de vermelho”, no radinho de pilhas que é companheiro dos dois. Lixos, roupas espalhadas, um fogão improvisado e o retrato da miséria, da condição subumana, do descaso. 
É na margem do rio, na frente da cabana, que Maninho pinta seus quadros e sua história. Desconfiado, quieto, um homem franzino, um desconhecido em sua própria cidade. Sua arte é basicamente composta por desenhos de árvores, de natureza.  Ele pinta sem pincel, pinta sobre madeira, partes de móveis velhos, muros ou até sobre um monitor de computador. A cada pincelada, um raio de esperança, uma tentativa de transformar em arte a tristeza do seu cotidiano.
O pintor do rio e o Pirata dividem dilemas e histórias por volta de 4 meses. Pirata chegou primeiro, há cerca de um ano foi levado para as ruas. O motivo? Uma separação trágica, uma traição, alterações de humor e a “Lei” – assim mesmo, entre aspas - Maria da Penha, como ele definiu. O ex-carpinteiro deixou o trabalho, a casa, filhos e netos. O conforto ficou no seu passado. No presente, versos para esquecer a amargura, o lixo e marcas profundas. Do seu futuro, ele não sabe, prefere deixar para os deuses, e canta:
“Sigo trabalhando, sigo andando e sempre agradecendo aos nossos deuses. Tanto o deus do bem, quanto deus do mal e só os dois sabem nosso final”.
Sobre a dicotomia dos deuses, o homem do rio, que anda com um crucifixo na mão e possui uma imagem do diabo sobre sua cama, justifica: “Aqui nós acreditamos em tudo e em todos, tanto o bem, quanto o mal”.  Pirata ainda fala que não rouba, que não pede esmola, mas que trabalha. Lamenta pela discriminação das pessoas, abaixa os olhos envergonhados, olha para as mãos sujas e desabafa. “Quando te jogam na rua, você tem que aprender a se virar, cozinhar, dormir sujo, a comer sujo. Tem que aprender a viver de verdade. Todo mundo vem aqui com a intenção de nos arrancar daqui, não de nos ajudar”.
O pintor da natureza também foi para as ruas por motivo semelhante, mas atualmente tudo o que deseja é se aperfeiçoar em sua arte. Tímido, ele está sempre em busca de fazer o melhor. A cada pincelada, um sonho que se concretiza em um, dois, três dias ou mais. A cada obra, uma nova ressurge. Maninho se inspira em cada árvore, em cada paisagem, em cada desejo de sua alma. Talvez fosse mais interessante para ele fazer um curso. Seu companheiro reconhece seu talento e diz que ele gostaria muito de ter aulas particulares, que não envolvessem ninguém da prefeitura. Entre tintas e lixo, o medo das organizações oficiais é claro.
E é assim, dia após dia, dias de sol ou de chuva, primavera, verão ou inverno que o artista e o velho do rio levam sua vida.  Entre versos, tintas, fome, medo e esperança, os dois homens tentam sobreviver, tentam driblar as dificuldades. Pirata sorri, os dentes estragados e amarelados não o impedem de cantar o verso final.
“Eu não sou daqui, sou do lado de lá. Eu vim aqui só para passear e por isso eu convidei Jesus para me acompanhar, para que meu passeio possa melhorar. Porque tem muita gente que só quer estragar o passeio dos outros por causa dos passeios dos outros. Desse lugar nada se leva, tudo aqui tem que ficar e por isso convide Jesus para te acompanhar e esse mundo pode melhorar”.
Maninho e Pirata são apenas mais dois entre as ruas de Curitiba. Quantos “Maninhos” e quantos “Piratas” estão por aí? Em cada esquina a triste história se repete. É o ciclo dos invisíveis, é a vida que ninguém vê.


Equipe: Alana Dombrowski Lima, Bruna Caroline Santos Cavalheiro, Bruna Martins Oliveira

Um comentário:

Celina Alvetti disse...

lindo texto, Bruna. parabéns!