quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um entre os quatro mil


Segundo dados mencionados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Curitiba em 2008 tornou-se palco de 2.776 pessoas em estado de vulnerabilidade nas ruas. A Fundação de Ação Social (FAS) só no ano passado atendeu 3.450; aumento de quase 25%. Já o Movimento Nacional da População de Rua alega que os números chegam a quatro mil.

Dos 3.450 moradores de rua atendidos pela FAS, 40% possuíam idade entre 31 a 45 anos e 81% eram homens. Entre as estatísticas e números e de frente a necessidades, desconfortos, preconceitos e indiferenças, encontra-se Carlos e sua “dinda”, apelido carinhoso à sua companheira Jane.

Juntos há um ano, o casal reside na Praça Rui Barbosa há mais de dez anos. De segunda à sexta-feira, do bairro Boa Vista ao Parolim, a busca por papelão para reciclagem inicia cedo, porém em todas as noites se leva trabalho para casa, pois sua moradia é o carrinho de papel, coberto com uma lona. “Meu negocio é puxar meu carrinho, puxo com dignidade e peço. Peço na caruda para a pessoa, se vai me dar ou não, Deus abençoe ela”, comenta Carlos.

Com a venda dos materiais recicláveis coletados, o lucro obtido gera em torno de R$ 50,00 a R$ 60,00 reais. Dinheiro priorizado para a alimentação, almoçando todos os dias em um restaurante por quilo que cobra somente um real e para o banho, com custo de R$ 7,50 para cada no Hotel Visconde. “O resto corremos atrás, o que importa é a saúde. Não passamos graças ao bom Deus nem frio nem fome. Temos saúde, pra dar e pra doar, pra vender: não!”,  aclama Carlos.

Ao contrário de muitas histórias de vida construídas na rua por causa da dependência de drogas licitas e ilícitas, ambos optaram pela rua em meio a problemas familiares. O residente de rua explica que os motivos para adquirir esse modo de vida variam de acordo com a pessoa, “pode colocar mil cachaças aqui, a gente não bebe. A grande maioria que tá na rua é pelo crack. Mas nem todos, todos é muita gente. Uns tá por causa da cachaça, uns tá por causa da maconha, uns tá por causa do crack”.

Sua namorada, Rejiane Aparecida Pinto, possui até casa perto da padaria “Seu Malandrinho” e mesmo assim comenta que não gosta de ficar em casa parada, está na rua por vontade própria. “Gostamos da rua. Uma parte é boa e outra não. A boa é que você come a vontade e ganha muita coisa. Você não passa fome na rua. Se chegar um morador de rua para você e falar que passa fome, é mentira” complementa Carlos.

Mesmo somando aos quatro mil moradores de rua, Carlos e Jane apontam que se sentem como se fossem os únicos residentes das ruas, pois não há relações com os demais, “nós somos mais sozinhos, não tem esse negócio de ficar em turminha. Policia bate, então só somos eu e ela, ela é minha companheira e eu sou o dela. Mas quando eu tenho um trocado, eu ajudo. Só que eu quero que a pessoa seja sincera para o que ela vai usar. Esses dias o cara tava com fome e nós demos cinco reais. Tiramos de nós! O que vocês vão fazer ou deixar de fazer é problema seu, minha parte eu to fazendo, cada um tem que fazer sua parte. Porque lá na frente a gente vai ser cobrado pelo que a gente fez. Se você fez o bem, volta em dobro”.


“Deus prepara tudo. Prepara teu café, teu almoço e tua janta. Mas você tem que fazer por merecer. Nada é por acaso ou de graça”. Carlos, anteriormente vendia drogas e hoje, por opção, encontra-se na rua: seu lar.

“Eu mato, mato um prato de arroz e feijão. Pra que eu vou matar?” Rejiane Aparecida Pinto, mãe de um filho com 13 anos, possui casa própria, mas opta por residir nas ruas ao lado de seu “dindo”. 


Por Giulie Hellen Oliveira de Carvalho, Lana Gillies e Letícia Joly

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