domingo, 8 de junho de 2014

A Morte do Mito em Cassiano





Faz parte de um trecho da carta magna da nação de que “todos são iguais perante a lei”, partindo desta premissa irrevogável se desenrolam quatorze princípios que definem a igualdade no Direito Penal.
Porém, de acordo com nosso protagonista, ainda não apresentado, que dirige seu veículo à propulsão humana entre os blocos da universidade até o de restaurantes, por fim para o ponto de ônibus, novamente, “isto é conversa para boi dormir”.

Sentado em uma mesa de madeira trabalhada sob o toldo de um restaurante atrás de duas redes para se espreguiçar, um metro e cinco centímetros, portador de osteogênese imperfeita, conhecida como a doença dos ossos de vidro, estudante de engenharia e praticante de natação para portadores de necessidades físicas, Wellington Cassiano observava ao redor, enquanto o almoço não fora servido, tentando encontrar palavras para descrever sua situação, por conclusão, disse ,com uma ênfase nos deficientes físicos, “A igualdade é um mito. E eu não acredito mais nela”. Determinou por fim, a ocasião de todos, por ele sentida na pele oleosa, nos ossos com pouco colágeno, no corpo todo.

Nascido em Volta Redonda, cidade do interior de Minas Gerais, levado pela mãe ao Rio de Janeiro, “porque na década de 1990 ninguém sabia muito bem o que eu tinha. Na cidade do Rio ela (sua mãe) me levou por causa dos tratamentos que uma cidade grande poderia oferecer”, crescido lá, vindo para Curitiba, onde mora na casa de uma tia, devido ao concurso do ProUni, no qual passou em Engenharia Mecânica na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) como bolsista, “porque é uma boa cidade. Aqui o urbanismo facilita a vida do deficiente e o clima frio é analgésico”. Posteriormente passou a praticar natação na piscina da PUCPR sob a supervisão do professor Rui Menslin, na categoria swimming 8, da qual explicou as classificações numerais  como: “tem de 1 a 10. A 1 é para o deficiente que já esta completamente f*****, aquele que só tem o torso, e tal. Já a 10 é para o maluco que não tem um dedinho, quase igual a um competidor normal, tá ligado”.

Seja para fugir dos estereótipos dos quais é visto, “me chamam de coitadinho, acham que eu sou retardado” por todos, pelo menos todos que prestam atenção nele, o uso de gírias, de palavrões, e de um vocabulário que não se enquadraria no politicamente correto (como é possível observar na última citação) em seu discurso é corrente. Talvez seja uma forma agressiva, que se torna cômica, da qual o Professor Paulo Freire já explicou na Pedagogia do Oprimido, qualquer oprimido que um dia possa ter os meios, neste caso o meio é o de comunicação, ele reafirmará a mesma lógica opressora que sofreu. Dito e feito. O olhar de Wellington é altivo, porque sua cabeça não consegue se sustentar então permanece com o queixo apoiado sobre o pescoço, por isso olha o mundo, mesmo que de forma mecânica, com o olho abaixado mas a íris em direção aos outros de maneira analítica. Ri da própria situação e da dos outros, mas a sua risada é estranha porque lembra um ruído de quase choro, como se a garganta fosse comprimida. Talvez de tanto chorar aprendeu a rir, mas não como os outros.

É conhecido como “mineirinho” por todos os praticantes, que já começavam a se reunir para o almoço às 13h25, de uma quinta-feira. No restaurante que fornece o almoço a um preço baixo para eles. “O restaurante fez um acordo com o time de natação paraolímpica, e eles meio que patrocinam a gente. Essa é a troca, na última semana um dos nossos ficou em terceiro no S5 (a pessoa em questão era José Carlos de Souza”). Daí apareceu uma foto dele com a camiseta do restaurante e tal”. Antes que o almoço seja servido, todos os praticantes ficam fora do restaurante, no toldo, se apropriam do local de fora enquanto “as pessoas não deficientes ainda não saíram”, e tem rotina parecida. Estudam na PUCPT pela manhã, almoçam alí sempre e posteriormente vão à piscina do campus para treinar. “Normalmente a gente treina oito horas por dia”.

Mesmo com tanto treino, mineirinho, ou Wellington, desfecha. “Jamais vamos ser iguais, isso não existe, um atleta normal sempre vai receber mais e vai ter mais reconhecimento que um paratleta”.

Acorda pela manhã na cassa da tia onde está “de favor”, dirigi seu veículo autônomo pela mão, “apesar das ruas de Curitiba serem boas ainda não são uma maravilha”, falando sobre os buracos e pedras pelo caminho, pega o ônibus” o curitibano é um pouco mais paciente com os cadeirantes que os de outras cidades quando o ônibus tem de ficar parado para nos levantar”, vai à aula, ‘levo nas coxas”, não fala sobre a família, acredito que comentou algo sobre o pai ter  deixado sua mãe depois dos exames pré-natal, mas não é certeza, almoça, e pratica natação, “isso eu levo nas coxas também”.

Todas as citações entre aspas a partir do segundo parágrafo pertencem a Wellington Cassiano.
por Vinícius Costa

Um comentário:

Celina Alvetti disse...

excelente colaboração. espero q os leitores apreciem a história e a escrita.