sábado, 7 de junho de 2014

O homem não tão invisível

É por trás de um vidro escurecido que o seu Chico vê o mundo. O vidro é escuro demais para que o mundo de fora o veja também, e assim, ele é uma presença invisível durante 8 horas todos os dias há 11 anos. Por mais que suas horas de trabalho sejam muitas vezes caracterizadas por brilhantes tardes de sol, o porteiro Francisco Moreira, permanece em uma sala em que as únicas luzes brilhantes vem das telas que mostram imagens das câmeras de segurança do prédio residencial no qual trabalha.

Ao se pensar em um porteiro, a imagem que vem à mente é sempre a de alguém que abre a porta, tem contato com todos aqueles que entram e saem do prédio, deseja bom dia, puxa conversa com quem espera o elevador chegar ao térreo e assim que ele chega, segura a porta e aperta o botão do andar para a mãe com o bebê no colo. Porém seu Chico sente-se um pouco diferente de seus colegas de profissão. No prédio em que trabalha, por questões de segurança, a sala destinada para ele fica atrás de um pequeno corredor e uma porta perto dos elevadores no hall de entrada.

“Eu gostaria de ter oportunidade de um contato mais próximo com os moradores do prédio no dia a dia. Os (moradores) mais antigos me conhecem e mantenho uma relação de muita amizade com alguns. Não posso dizer que fico sempre sozinho, porque esses que me conhecem há mais tempo sentem a liberdade para entrarem aqui e muitas vezes até perdem o horário enquanto conversamos sobre futebol, política ou mulheres (risadas), mas não falamos sobre nenhuma moradora! (muitos risos)."

Apesar das risadas divididas com alguns amigos que o visitam em sua salinha reclusa, o porteiro, ao longo de 11 anos, percebeu que muitos dos que entram e saem do prédio, ignoram completamente a presença dele, mesmo sabendo que a porta não se abre sozinha toda vez que chegam em casa. “Bom, consigo pensar em uns 5 apartamentos nos quais as pessoas nem sabem qual o meu rosto. Eu mantenho a porta sempre aberta, e apesar de tentar desejar um bom dia sempre que passa alguém, o corredor não permite que a pessoa me veja, só me escutam e alguns respondem, outros não. (...) Até já assustei algumas pessoas quando tentei cumprimentá-las.” Mas será que essas pessoas não esperavam que houvesse alguém ali, a mesma pessoa que as viu através do vidro enorme ao lado da porta, que a abriu sem que eles precisassem sequer tocar no interfone? Será que ao verem o adesivo “sorria, você está sendo filmado” no espelho do elevador, elas não percebem que alguém está assistindo às imagens?

A verdade é que não é necessário uma sala reclusa para que as pessoas ignorem e passem todos os dias umas pelas outras sem as enxergarem realmente. Um morador que não sabe nem o nome do porteiro do seu prédio parece algo absurdo – como podemos ignorar a esse ponto uma presença tão importante pra nossa segurança? -, mas eu mesma não sei. Hoje perguntarei.

(09 de junho é dia dia do porteiro)


Roberta M. Silveira Nassar

Um comentário:

Celina Alvetti disse...

ótima contribuição. a personagem representa um coletivo frequentemente invisível,q você trouxe à luz, com sensibilidade.